quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Alguém como ela, alguém como ele

Seus olhos se encontraram. Ainda ali, entretanto, naquela breve fração de segundos que os uniu no primeiro momento, ela não podia afirmar nem sequer uma crush. Dizer algo sobre estar apaixonada também não fazia sentido.
O sorriso dele tomou conta do lugar e pronto! Boom! Explosões de fogos de artifício, coros cantando Queen e ela podia se ver deixando o "lonely hearts club band". Foi o sorriso a causa da mágica.
Então, ali naquela fração de segundos, ela já afirmava para si que teria problemas para evitar se apaixonar. Tarde demais.
Não foi amor à primeira vista, nem à segunda.
É mais certo falar de conexão que de amor. Falar de amor é muita pretensão. Falar de amor é assumir responsabilidades sentimentais além da conta de quem vos conta.
A química e a física e a anatomia humana, porém, são fatores para se levar em consideração no encontro dela e dele.
Que mais dizer?
Ele lhe falou sobre suas músicas prediletas e eles conversaram como velhos amigos. Depois ele ousou a abraçar, a sorrir e a olhar para ela... A certeza era certeira, ela teria sérios problemas para se desapaixonar.
Foi conexão à primeira "At last", "Try a Little Tenderness", "Hey Jude" e à Cássia.
Ele sorriu e chegou junto. Resolveu que falaria e a fez rir como ela não ria há um bom tempo.
Piadas bobas e trocadilhos mais bobos ainda, coisas que nem todos conseguem achar graça...  bom... ela não era todos... ela pensou ter entendido aquele ele ali à sua frente e se converteu aquela caixa de risadas de dois metros.
Sentiu-se confortável quando ele a abraçou pela primeira vez e pensou que poderia caber ali por um bom tempo. Pensou, pela primeira vez, que poderia morar no abraço de alguém e seria no abraço dele.
Ela o reconheceu dentre tantas almas porque os olhos dele denunciavam a solidão que só os mais atentos ao invisível seriam capazes de enxergar também nos olhos dela. Não uma solidão qualquer. Não uma solidão daquele tipo que se resolve trocando móvel de lugar ou pintando e cortando os cabelos e saindo com amigos.
Uma solidão genuína, daquele tipo que não se aplaca, daquele tipo que com o tempo transcende o amor. Ela o reconheceu.
Daí ele tentou conquista-la, mas as cargas pesadas de paixonites passadas a prendiam numa bolha de medo e decepção.
Com jeitinho ele acabou conseguindo vencer as barreiras dela e conseguiu penetrar, derrubando todos os muros que ela erguera para si.
Ela não fez sexo casual naquele dia.
A verdade é que ela nunca fizera sexo casual, porque sempre fora dada ao romantismo e, mesmo que tentasse negar e esconder, qualquer um podia ver isso.
Ela fez entrega com ele, não sexo casual. Ela fez libertação com ele, não sexo casual. Ela fez paixão com ele, não sexo casual. Ela fez amor com ele, não sexo casual.
Gemeu nos braços dele como nunca fizera. Abriu-se e se despiu de qualquer inibição, se despiu de qualquer culpa e apagou o passado de medo e decepção. Ela fez sorrisos com ele enquanto seus corpos eram um só.
Mas como confessar para um coração que parece estar meio quebrado e tentando se recuperar e se recompor que o quer amar?
Como se expressar sem gerar certo medo e sem causar apreensão?
E como fazer isso assim quando tudo é tão súbito, quando tudo só tem alguns dias?
Como não pesar feito tempestade de granizo sobre ele?
Teimosa e egoísta... ela acabou sendo.
Impaciente... ela sempre fora.
Não era dessas que guarda demais o que sente.
Nunca fora dessas que repreende sentimento e trancafia emoção.
Soltou que estava apaixonada, mas errou na proporção, na medida... tirou o pé do freio, o que nunca fazia...  errou por não levar em consideração o outro coração. Ao menos achou ter errado.
Naquele dia, o dia em que fizeram tantas e tantas conexões, não havia apenas uma batida a ser considerada. Haviam dois corpos, logo... dois corações.
Ela soltou sem levar em conta a vida do outro, a vida dele... foi fiel a si mesma sem pensar que talvez essa fidelidade estragasse tudo.
Ele ficou mudo.
Ela choramingou de leve.
Ele ficou mudo.
Ela tentou assimilar que ele precisava de distância. 
Agora os dois jazem numa bruma que vem e vai e dissipa em alguns sonhos dela.
Numa bruma que apenas se revela quando lembranças boas querem ser vivenciadas em devaneios noturnos, como se tudo tivesse acontecido há muito tempo em outra vida.
Como ela pode se envolver dessa forma?
Como pode ser egoísta dessa forma?
Não foi carência ou problemas psicológicos ou emocionais ou dor ou ausência, ela afirmava para si mesma... não foi nada disso, ela choramingava para si mesma.
O certo é que ela não é mulher de esconder o que sente. Ela é mulher de se entregar.
As resposta ela sabe ou pensa saber. E sabe que não é mulher de amargar amores e abraços partidos pelo resto da vida.
Como ele, também teve sua cota de tristezas. Ela sabe a resposta ou pensa saber.
Hora qualquer a mudez e a ausência param de doer nela. Hora qualquer ela supera o silêncio. Hora qualquer ela o abandona num canto escuro da memória.
Hora qualquer ele se resolve. Hora qualquer ele supera as dores e os problemas que o perseguem. Hora qualquer ele começa de novo.
E quem sabe, como tantos outros casais, eles se reencontrem "lendo jornal na fila do pão".


Por: Leila Plácido


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